Os cinco minutos diários em que eu creio em Deus

18 11 2011

É de conhecimento público minha posição religiosa; sou ateu.

Sim, por mais pavoroso que isso pareça, por mais horripilante que seja pra você a idéia de um sujeito que não acredita num ser superior criador de tudo e de todos com toda a sua magnificência, benevolência, sapiciência entre outros radicais polissilábicos terminados com o mesmo sufixo, eu estou aqui, e não acredito nesse ser e nem por isso sou um monstro maníaco comedor de criancinhas que nas horas de folga ateia fogo em moças virgens e indefesas que estão paradas numa pracinha esperando por seu grande amor. Sim, eu sou ateu e nem por isso sou um ser terrível

Ser ateu não é ser alguém maligno, cruel, devastador, imoral, indecente e sei lá quais outros adjetivos os homines religiosi colocam naqueles que não acreditam no que eles acreditam; ser ateu é simplesmente não acreditar. Não é blasfemar – nem temos contra o que blasfemar já que não temos uma ideologia religiosa à qual devemos algum tipo de respeito. A religiosidade de um ateu é um nihil religiosi; não dá pra definir. O preconceito geralmente vem daí, por não conserguirmos definir o que é ser ateu com alegorias metafóricas que predominam nas explicações religiosas. Não temos histórias, parábolas, passagens, capítulos, versículos que, com suas metáforas, hipérboles, hipérbatos entre outras figuras de linguagem pra explicar o que pensamos ou que sirvam de luz guia para nossas ações. Nós apenas agimos da forma como pensamos ser o certo; tratamos os outros como gostaríamos de ser tratados e falamos aquilo que gostaríamos de ouvir – isso sem precisar de nenhum mandamento ancestral punidor que, se não o seguirmos, seremos mandados para um lugar cheio de mármore derretido e fervente onde ficaremos por toda a eternidade. Aliás, ser ateu é não acreditar sobretudo nisso. Ser ateu além de tudo é não acreditar que a resposta religiosa realmente valha como definitiva; no máximo, a resposta religiosa vale como uma nova pergunta: “Isso realmente é possível?” ou talvez “Devemos abandonar o cientificismo e adotar o fantástico como alternativa real para essas questões?”. Fora desse contexto, a resposta religiosa não é – e nem deve ser – levada ao crivo de uma discussão científica séria. E essa é a discussão que rege o ateísmo. Ser ateu é reconhecer o quão insignificante é a existência humana e, a partir da consciência dessa pequenez, cultivar, criar, cuidar das coisas para que a existência mesma tenha sentido aqui, não num plano astral. É fazer as coisas terem significado, mesmo sem terem sentido mitológico, espiritual ou divino.

Ateísmo não é algo que se escolhe. Não é como um time de futebol que se escolhe e de uma hora pra outra se diz “Ah! Sou ateu!”. É uma sucessão de questionamentos que surgem na infância e depois tomam forma da certeza de uma não existência. É olhar pra fora do mistificismo e enxergar um espaço onde não há espaço para um “design inteligente” ou um “mito da criação”. A fé é criada pela dúvida, a falta de fé pela certeza. É como eu disse, não dá pra explicar a falta de crença.

Muitas vezes somos abordados com a pergunta “então pra onde você acha que nós vamos depois que morremos?”. Eu, pelo menos respondo que não sei. Creio que tudo acaba, mas isso vai de cada um. Já vi ateus responderem algo como “A 4ª dimensão”, a famosa dimensão pra onde vão as energias quando se esgotam. Eu particularmente acredito que tudo acaba no último fechar dos olhos, sem poesia de vida postmortem, ou a beleza da reencarnação; apenas um fim. É aqui que as vezes alguns ateus sentem um nó na garganta.

Saber que não há um lugar sagrado reservado pra cada um de nós após a morte é paralisante, não por sabermos que vamos morrer e tudo vai acabar, mas as vezes por saber que aqueles que amamos simplesmente morrem, que não estão mais lá nos velando e que não há esperança de reencontro. Essa é a segunda pior parte. Não me apavora tanto o fato de saber que meus entes queridos, sejam eles pais, amigos ou irmãos quando forem embora simplesmente deixarão de existir, o que me apavora realmente é saber que não há um ente superior velando por eles em vida. É ruim saber que não há nenhum deus, santo, anjo ou espírito superior velando por eles enquanto estão longe e não podemos ficar ao seu lado pra certificar que estão bem. Isso sim é triste.

Há alguém que há não muito eu tinha certeza de como estava sempre, que sempre me certificava de seu estado; se dormia bem, se comia direito, se voltava bem pra casa, se precisava de algo. Quando algo não estava bem, eu fazia que ficasse bem pra que nada acontecesse de pior. Velava seu sono, seu passo.

Hoje não posso mais ter certeza de como esse alguém está. E machuca não saber se está bem ou se precisa que eu faça algo. Por isso, toda noite, antes de dormir, eu peço não pra que deuses, santos, anjos, espíritos, entidades cuidem de quem eu amo, mas eu peço pra que todos nós ateus estejamos errados e que haja realmente algo pra proteger aqueles que eu não posso estar perto pra proteger. Por isso antes de fechar meus olhos pra dormir eu me concentro e peço pra um possível deus existente em alguma nuvem, monte, nave ou caverna que cuide dela, e não deixe que nada de mal aconteça enquanto estou longe.

Por isso agora eu peço aqui: se há um deus aí, cuidando de nós ou apenas se divertindo às custas de desavisados descrentes e pagãos, que, na minha falta cuide de minha pequena menina, pois sei que se minha falta não é sentida, minha presença é ao menos necessária ao lado dela, e mesmo que eu tenha sido descrente por 23 horas e 55 minutos todos meus dias, ela ainda é jovem o suficiente pra precisar de proteção; então a proteja, não pelas súplicas de um velho blasfemador, mas pela segurança de uma alma ainda não inflamada pelas mesmas irreparáveis chamas que corroeram um dia minha fé.





Ten Years Gone

13 05 2011

Hallohímen

Acho que ninguém guarda datas como eu. Essa minha habilidade assusta muita gente: guardo aniversário de todos, datas comemorativas, aniversários comemorativos de qualquer coisa. Chega a ser estranho. Acho também que ninguém dá a importância que eu dou a datas. Cada data que marca qualquer mudança pra mim é celebrada como a maioria das pessoas celebra um Ano Novo.

Mas duas datas são essenciais pra mim: 16 de Maio e 21 de Maio de 2001. Esse curto período de tempo foi decisivo pra minha vida até hoje. Mesmo sabendo de todas os acontecimentos que antecederam essa data, todos os acontecimentos que causaram esse período de cinco dias de 2001, essas duas datas são realmente muito marcantes.

Tudo começou dia 05 de Março de 2001. Eu tinha 14 anos e era um bocó. Não que eu tenha melhorado muito, mas tenho certeza que hoje eu sou mais esperto. Nessa época eu não andava à pé. Eu tinha uma bicicleta vermelha, 21 marchas, suspensão, feita de alumínio leve, aro de carbono, e cara. Eu usava essa bicicleta até pra ir na padaria da esquina comprar pão. Sempre me senti bem pedalando, sempre me dei bem com velocidades, e por isso eu não deixava minha bicicleta parada – qualquer motivo era motivo pra montar nela e sair pedalando e ver qual velocidade eu conseguia atingir. Nessa época eu estudava de manhã e nesse dia eu tinha acordado atrasado pra ir à aula. Como de praxe, pra não perder a hora, peguei minha bicicleta e fui correndo pro colégio. Como não podia deixar a bicicleta lá, deixei ela na estufa do marido de minha irmã, que ficava perto da escola. Era uma segunda-feira, de manhã, centro da cidade, bairro movimentado, lugar seguro, murado. Assim eu pensei. Nessa situação que descrevi, alguém pulou o muro e roubou minha bicicleta. Ninguém viu nada. Nem eu vi minha bicicleta. Passei a andar à pé. Cada passo que eu dei dali em diante fazia com que eu me sentisse mais e mais estressado.

Nessa mesma época eu tinha uma namorada. Dois anos mais velha que eu. Por uma gama de fatores, dia 11 de Março de 2001 nós terminamos. Chovia. E chovia muito, como se o céu fosse desabar sobre nossas cabeças. Foi como se o céu desabasse sobre minha cabeça. As vezes tento imaginar como estaríamos hoje, se nada daquilo tivesse acontecido. Na pior das hipóteses, estaria morando em Corumbá, Mato Grosso do Sul. Longa história.

Naquela época eu tinha um amigo, Maciel. Era uma boa pessoa, me acompanhava pra todos os lugares onde eu ia. Eu também o acompanhava a todos os lugares onde ele ia. Fazíamos tudo juntos: tínhamos um mini estúdio de desenho, queríamos montar uma banda, gostávamos dos mesmos jogos de video-game. Mas Maciel sempre fora diferente de mim quando se tocava em religiosidade. Eu sempre tinha dúvidas e ele sempre me convencia, com argumentos canhestros, que eu estava errado. Eu não saía de casa. Quando não estava na escola, ou trabalhando ou na em Varginha na casa da minha namorada, estava com Maciel jogando video-game. Eu não sabia direito o que tinha além daquilo que eu tinha até então. Se não houvesse nenhuma intempérie, continuaria naquele ritmo até o fim dos tempos. Sorte minha que houve.

16 de Maio de 2001 – Quarta-feira. Com tudo aquilo acontecendo; stress por ter perdido a bicicleta, tristeza por ter perdido a namorada, nervoso por ter que andar à pé, um motivo banal causou uma briga entre Maciel e eu. Discutimos e não conversamos por mais de dois anos. Dali em diante, sem namorada pra ir na casa dela e sem meu parceiro pra jogar video-game, fui procurar outros rumos pra minha vida. Dois dias depois, dia 18, eu não tinha equipe pra um trabalho da escola – já que meu companheiro era Maciel – entrei numa outra equipe.

19 de Maio – Sábado. Sem nada pra fazer em Três Pontas, fui pra uma festa na casa de um amigo meu em Varginha. Lá conheci amigos que me acompanham até hoje. Automaticamente entrei na turma deles. Automaticamente fui considerado membro da turma “Hallohímen”.

19 de Maio de 2001 - Pra ninguém ter dúvidas que a gente gostava da erva

21 de Maio – Segunda-feira. Primeira reunião da equipe que eu tinha entrado pra fazer o trabalho da escola. Saí de casa muito nervoso, já que a reunião ia ser longe da minha casa e eu não tinha bicicleta pra ir pedalando. Nesse dia conheci minha segunda namorada. Levei ela pra casa depois de ter feito o trabalho e começamos um confuso relacionamento que durou três anos. Por incrível que pareça, ela me apresentou a quarta.

Tudo o que se seguiu dali em diante, causou dez anos de encontros e desencontros na minha vida. Acho que se minha bicicleta não tivesse sido roubada eu não teria me estressado e não teria dado vazão às discussões bobas da minha até então namorada. Não terminaríamos. Se não tivesse terminado com ela, não teria brigado com Maciel. Se não tivesse brigado com Maciel, eu ia ficar na casa dele jogando no fim de semana, não teria conhecido os “Hallohímen”. Se não tivesse conhecido os “Hallohímen” eu teria outras histórias pra contar, senão as absurdas (e divertidas) que tenho hoje, e não teria os amigos que eu tenho hoje. Se eu não tivesse brigado com Maciel, eu teria uma equipe pro trabalho da escola e não teria entrado na outra, onde conheci minha segunda namorada. Se não tivesse conhecido ela eu não sei o que eu estaria fazendo hoje, pois muita coisa que eu aprendi, eu aprendi do lado dela e com as pessoas que ela me apresentou. Inclusive minha quarta namorada eu conheci por causa dela.

No fim, se não fossem os acontecimentos desses cinco dias, acho que eu continuaria o mesmo cara com as mesmas ambições e com os mesmos amigos.

Jack Taiada - Mascote dos Hallohímen

No fim das contas, eu devia pagar pro cara que roubou minha bicicleta.

Aí você diz que o roubo da bicicleta não foi a causa de tudo, que tudo poderia ter acontecido mesmo se minha bicicleta não tivesse sido roubada. Certo, existe essa possibilidade. Mas, se ela não tivesse sido roubada, e mesmo assim eu tivesse brigado com Maciel, dia 19 de Maio eu teria ficado em Três Pontas pedalando, como de costume. E dia 21 eu teria ido fazer o trabalho de bicicleta e na hora de ir embora eu iria de bicicleta sozinho e deixaria a menina lá, sozinha, esperando outro levar ela embora.

Acredite, eu era um bocó. Eu faria isso.





Demonon Vrosis

28 03 2011

Eu tive algumas namoradas durante minha vida; todas elas foram importantes, umas mais que as outras, mas todas tiveram sua importância e deixaram sua marca em algum ponto.

Minha primeira namorada foi cedo, tinha 12 anos e ela 14 – ficamos juntos 1 ano e 8 meses. Ela me ensinou o que era ser paciente, me ensinou que perdão não é uma palavra e sim um ato de fé numa pessoa – o que não significa expiação do castigo. Ela dizia: “perdoar é tirar toda raiva de seu coração e voltar a ter fé em alguém. Isso não quer dizer que a pessoa mereça ter sua pena reduzida ou anulada – perdoada ou não, ela lhe fez algum mal e merece ser privada de algo, mesmo que isso custe algo importante pra você e te faça sofrer – perdoar é fazer bem a si mesmo, não um ato de caridade pra diminuir o sofrimento alheio”. Carrego essas palavras até hoje.

Minha segunda namorada era uma cópia física da primeira. Eu tinha 15 anos e ela estudava comigo. Nosso relacionamento durou três anos, embora só tenhamos namorado por cinco meses. Ela falava por poemas e se expressava por desenhos. Quando terminamos pela primeira vez, ela me disse o seguinte: ”As pessoas foram feitas pra ficar juntas, embora nem todo mundo tenha sido feito pra conviver com todo mundo, mesmo assim devemos ao menos tentar. Três tentativas não é o mínimo, muito menos uma medida – três tentativas são uma chance pra qualquer coisa, daí em diante você escolhe dar ou não chances”. E com lágrimas nos olhos ela me recitou um verso: “A primeira vez, sempre a última chance” e se foi, não pra sempre, mas oficialmente.

Minha terceira namorada esteve comigo num hiato de relacionamento que eu tive com a segunda, eu tinha 16 anos e ela sempre disse que “BOM”, “MAU”, “CERTO” E “ERRADO” são pontos de vista, e que não devemos julgar ninguém pelos seus atos e pensamentos, pois o que valia é se o que ela faz ou pensa faz bem pra ela, o resto é negociável pra convivência, não passível de julgamento.

Minha quarta namorada surgiu muito tempo depois, eu tinha 19 anos e não sei precisar quanto tempo ficamos juntos ou início e término: ela simplesmente esteve ali desde que me lembro e repentinamente sumiu. Ela me dizia que pra estar junto, não era preciso estar por perto, que às vezes a melhor palavra é aquela que não tem som, que a verdade não tem cara, ela é uma máscara que as pessoas põe em suas falas e que tirar essa máscara às vezes é muito doloroso. Mas se sentirmos necessidade de tirar essa máscara, é melhor não tirar e afastar de vez quem a usa – a verdade às vezes é mais feia que a máscara que ela veste.

Minha quinta namorada me ensinou o valor que nossas palavras têm. Usar a máscara da verdade só piora as coisas, tanto pra você quanto pra quem vê a máscara. Ficamos juntos pouco tempo, mas essa lição ela me ensinou.

Minha sexta namorada me mostrou o que era liberdade. Não liberdade de pensamentos ou ações, mas liberdade consigo mesmo, e através de seu jeito canhestro e incomum, aprendi como me sentir bem comigo mesmo. Ela também me ensinou que não aceitar diferenças é crueldade não só com os outros, mas consigo mesmo. E que, por mais que nossa concepção seja fundada em embasamentos científicos, teóricos e dogmáticos, tudo deve ser visto sob um ponto de vista diverso. Alguém pode ser estranho a nossos olhos, mas não melhor ou pior que nosso próprio estilho de vida e que mesmo que alguém não esteja exatamente enquadrado nos nossos padrões de vida, pode ser alguém especial pra toda vida.

Agradeço a todas vocês pelas lições dadas e pelos momentos vividos e proporcionados. Saibam que cada sucessora de vocês conheceu um homem melhor que o menino que vocês namoraram.





Hipnos

17 01 2011

Um abajur que mal iluminava o próprio criado mudo mostrava as horas de meu relógio despertador. Eram sete e quinze da manhã de uma segunda feira.

Eu não sabia o motivo daquele número cabalístico, nem o motivo de ter que acordar todos os dias naquele mesmo horário; eu sempre estendia meu período de sono mais um pouco, como um tributo à preguiça, como se fosse um sacrifício em prol de algum deus do sono. O fato é que meu relógio despertava sempre as sete e quinze, sendo que eu sempre me levantava meia hora depois.

Durante esse sonolento período de sono entre o acordar,  estar desperto e levantar, eu conjecturava sozinho como seria meu dia: o que fazer, o que não fazer, como agir, como não agir. Mas na maioria das vezes, eu ficava me lembrando de fatos importantes ocorridos durante as últimas semanas. Sempre eram poucos fatos, mas eu gostava de imaginar os fatos como eles aconteceriam se eu agisse de maneira diferente. Gostava de pensar na forma como eu gostaria que eles acontecessem. Gastava nesse ritual minha primeira hora desperto.

Enquanto pensava comigo mesmo  sobre as inúmeras formas que eu deveria ter agido, eu olhava atentamente para os ponteiros de meu relógio, e numa forma de transe consciente, eu via os ponteiros se mexerem. E meus pensamentos acompanhavam o tique-taque do relógio até o badalar final dos sinos que anunciavam o término de meu tempo de imaginação. Não com pequeno pesar eu ouvia aquele badalar, mas eu não podia simplesmente ficar ali preso a devaneios. Eu tinha que ir escutar os devaneios de outras pessoas.

Eu me levanto com vagarosidade, como se esperasse algo acontecer que me impedisse de sair dali e continuar em minha saborosa distração. Nada acontece. Eu me levanto, me apronto, desço as escadas de meu prédio – o elevador nunca está funcionando – tomo um café na padaria mais próxima e às oito e meia eu chego ao meu consultório. Minha secretária está me esperando com a pasta de meu primeiro paciente do dia. Me cumprimenta, sempre sorrindo e com a mesma pergunta: “Dormiu bem, doutor?”, eu responderia de prontidão: “Não, mas meus primeiros trinta minutos acordado foram excelentes!”





Precisa-se de Poetas para Poemas Tristes

8 01 2011

Nunca realmente nos importou onde, como ou qual era o motivo, o modo ou onde era a festa; nós simplesmente estávamos presentes. Se era idiota, se era inútil funeral ou longínquo lugar onde a havia o destrutivo composto de oxigênio hidrogenado – lá estávamos eu e ela.

Embora não fossemos amantes ou parceiros, compartilhávamos de um sentimento mútuo – não um pelo outro, não pelos outros; mas dos outros por nós. Embora não fossemos amantes sempre partilhávamos o caminho para qualquer patusca, festa comemoração ou festejo. Nem sempre partilhávamos o caminho de volta, raras vezes terminávamos junto ao abrirem as primeiras portas das manhãs – mas estávamos sempre juntos ao se recolherem as últimas cadeiras.

Éramos convivas e comensais, éramos badalados e bajulados; não nos faltavam olhares, não nos faltavam palavras, não nos faltavam toques. Nossas mesas sempre cheias, nossos copos nunca vazios, nossos cigarros sempre acesos, nossas companhias sempre diversas, divertidas – nos sobravam sorrisos. Sempre rodeados, sempre acompanhados, cada um em seu extremo, cada um em sua mesa, cada um em seu grupo, cada um em seu lugar.

A cada copo que se esvaziava, a cada cigarro que nos acendiam, a cada sorriso conquistado, a cada beijo dado ou roubado, nos olhávamos comemorando a grande comemoração que era a partilha de nossas vidas. Desde que nossa união se concretizara nunca houve dia mal dormido ou sol que não levantasse para nos colocar na cama. Éramos as festas, nosso sangue o vinho, nosso corpo a dança, nossa voz a música. Éramos às festas.

E se, no meio disso tudo, se separados ou apenas distantes, nossos olhares se encontrassem, eram profundos os suspiros de quem sabia o fim. Quando a festa acabasse, quando fosse servida a última garrafa, virada a última cadeira e a banda soasse a última nota, lá estávamos nós; embriagados, sonolentos, sozinhos, solitários – unidos pela distância que separavam nossas mesas. Os últimos, os que restaram. Unidos pela certeza que aquilo tudo não foi real, que teremos de fazer tudo de novo para nos sentirmos bem. Pois quando a festa acaba estamos cada um em sua mesa, separados de nós mesmos e separados do que se foram; pois ninguém nos suporta mais, nós não nos suportamos e nem suportamos a nós mesmos. Mas nos mantemos unidos nesse sagrado matrimônio chamado solidão que nos leva todo entardecer a procurar outro copo, outro corpo, outro beijo para aliviar aquilo que ninguém mais quis e nos foi dado como punição.

Outra manhã nasce e com ela a certeza que a noite nos espera novamente, acompanhada de mais vinho e outros pesares que a nós foi destinado.

À Bruna Pontes





O Relógio

20 09 2010

O relógio contava quinze minutos faltando para as sete da manhã quando eu percebi que já estava acordado. Eu recusava a idéia que dali pouco tempo eu teria que me levantar para preparar minha rotina diária de exaustão. Tantas queixas, tantos desabafos, tantos desencontros; e eu perdido com os meus diante dos problemas dos outros.

Cansado de olhar para o relógio, e desesperado pela impotência contra o tempo que passava, resolvi olhar através do relógio – não vi nenhum significado poético, não vi nenhum ensinamento divino ou coisa parecida – eu vi apenas um porta-retrato ao me desfocar do meu objeto de angústia para olhar o que havia por detrás dele.

Havia anos que eu me deitava sempre na mesma cama, do mesmo lado, na mesma posição. E na mesma medida de tempo, havia ali uma cômoda. Mas eu sempre enxerguei apenas o relógio sobre a cômoda. Aquele porta-retrato inexistia para mim até aquele momento. Como nunca havia reparado? Como eu nunca percebi um porta-retrato ao lado de meu relógio sobre a cômoda?

Naquele porta-retrato havia uma fotografia de um casal abraçado. Pareciam felizes. Ela o abraçava por trás, a cabeça pendia sobre o ombro esquerdo dele, enquanto ele inclinava a cabeça para a direita. Ambos sorriem. Ela é extremamente bonita, tem um sorriso envolvente, um olhar penetrante. Ele parece ser apenas um rapaz, um rapaz sem importância alguma, alguém que só está ali para completar uma lacuna que aquela bela imagem feminina deixaria. Seu sorriso não se compara a imensidão do sorriso juvenil dela. Aquela figura masculina só podia estar ali para completar o sentido daquela bela figura. Para suavizar aqueles traços belos e completar a figura de modo que numa só imagem pudesse haver dois extremos. Pensei em quão genial foi aquele fotógrafo ao usar tais modelos em uma fotografia.

Foi quando percebi que a figura masculina na foto era eu.

Nesse instante percebi que aquela imagem feminina não estava ali para ser completada, e sim para completar. Vi meu sorriso naquela foto; não era um sorriso forçado – era um sorriso causado que eu tinha. Naquele instante, eu me lembrei do momento em que minha vida tinha ganhado um norte, naquele momento me lembrei de quão importante aquela mulher é para mim. Tudo por eu ter desviado os olhos do meu relógio. Olhei para o relógio, já passavam das sete horas, mas eu resolvi me virar e abraçar aquela mulher que esteve comigo por tanto tempo sem que eu me desse conta de sua importância; mas ao me virar, não encontrei ninguém. Apenas um papel escrito em letras miúdas – “Adeus”.





Eu, Luiz e minha banda

2 03 2010

Eu e Luiz numa festa a fantasia qualquer

Acho que todo mundo, quando criança ou adolescente, se não teve, sempre quis fazer parte de uma banda. Eu tive a minha.

Creio que ela começou quando eu tinha uns nove ou 10 anos, não me lembro bem: eu na bateria, Maciel no vocal, Luiz nos teclados e por incrível que pareça, não tínhamos guitarrista! Era quase um projeto de música experimental. Enquanto os White Stripes tocam sem baixo, nós tocávamos sem guitarra. Lógico que isso não durou muito tempo e eu comecei a fazer alguns acústicos no violão. Nada muito bom – até para uma criança de nove ou dez anos – mas quebrava o galho enquanto o Stefan apanhava da bateria. Chamamos o Lincoln pra me ajudar com os violões e estava formada uma banda infanto-juvenil. Colocamos o nome da banda de Yuyu Hakusho, em homenagem a um desenho que todos gostávamos na época. Tocávamos basicamente covers de bandas como Legião Urbana e o tema de apresentação do referido desenho. Era mais diversão que projeto de vida; nossa platéia mal se resumia aos meus pais e a alguns amigos que iam assistir nossos ensaios.

Essa formação não durou muito, após dois anos de ensaios e mais ensaios, o Stefan estava particularmente desanimado com a idéia de ser um baterista e saiu da banda antes mesmo de pensarmos em fazer uma apresentação fora de nossas garagens. Chamamos Rafael para tocar bateria conosco. Nosso vocalista trouxe uma música diferente para o repertório, de uma banda de heavy metal que não sabíamos o nome. Nem da banda e nem da música. Trocamos o nome de banda para “Darkness”, coisa que não agradou muito o Luiz, embora ele tivesse gostado muito da música. Anos mais tarde descobri que a música se chamava “Sole Survivor” e a banda se chamava Helloween. Lincoln parou de tocar guitarra e começou a tocar baixo, começamos a tocar em alguns shows.

Nosso som ia ficando mais pesado com as mudanças de repertório. Começamos a tocar covers de bandas como Metallica, Black Sabbath, Iron Maiden… Luiz sempre nos pedia pra tocar Raul Seixas, parecia até aquele cara chato que fica na frente do palco o tempo inteiro gritando: “Toca Raul!” – Só que dentro do palco. Foi quando Maciel e Lincoln deixaram a banda por não gostarem daquele tipo de música. Eu comecei a fazer os vocais e chamamos Edson para ser nosso baixista. Essa formação durou anos e mais anos.

Festa de lançamento do nosso segundo álbum

Mudamos o nome da banda diversas vezes, como também mudamos de estilo. De Rock para Heavy Metal, de Heavy para Thrash, de Thrash para Black, até que por fim paramos num misto de Death Metal com Black Metal. Até então éramos quatro: Eu, Luiz, Edson e Rafael, e a banda se chamava “The Inheritance”.

Essa foi sem dúvida uma época boa, não pela banda, mas por tudo que isso gerava. Fazíamos alguns shows por mês, nos divertíamos, ganhávamos algum dinheiro, mas sempre rindo de tudo. Mas com o tempo começamos a ver que aquilo era rentável e vimos aquilo como negócio. Gravamos EP’s, Demo-Tapes, CDs e por fim, tocávamos em festivais e mais festivais e até fizemos uma pequena turnê européia. Mas o dinheiro foi acabando com tudo e o primeiro a desistir foi o baterista, que no meio da turnê foi embora e nos deixou na mão. O incrível era como Luiz encarava tudo; estava sempre rindo, brincando com os teclados nos shows, estava sempre se divertindo, enquanto o resto da banda se matava em performances que agradassem o público. Eu virava as noites esquentando a cabeça com composições, arranjos e melodias, enquanto ele aparecia com tudo pronto, horas depois que eu lhe entregava as partituras para ele fazer os seus arranjos. Não era talento, não era dom, era como se ele estivesse brincando com aquilo, ninguém nunca entendeu.

Enquanto ele jogava vídeo-game o dia inteiro, Edson e eu ficávamos fechados numa sala quente criando solos para no final, ele apenas olhar e em cinco minutos criar um arranjo no teclado que completasse aquilo.

Os anos passaram, gravamos mais dois CDs, fizemos alguns shows, até que um dia Luiz nos disse que deixaria a banda pois se mudaria para o sul. Após longas discussões sobre o que faríamos, quem colocaríamos nos teclados, se colocaríamos alguém no lugar de Luiz, pois não era justo simplesmente substituí –lo, acabamos com um projeto que já durava mais de dez anos e, consecutivamente com uma parceria de antes até: a minha e de Luiz. Edson criou sua própria banda, eu segui meu caminho trabalhando com informática e Luiz foi para o sul.

Nunca mais tocamos juntos.

Luiz e eu em São Paulo quando fizemos o show de abertura para o Behemoth

Mesmo que essa história fosse verdade, mesmo que minha banda tivesse existido, mesmo que tivéssemos feito shows, gravado CDs e viajado pelo mundo, houve realmente uma amizade entre eu e um cara chamado Luiz (que realmente tocava teclado). A amizade não acabou mas ele se mudou para o sul há alguns dias.

Esse é apenas uma homenagem e uma forma de desejar boa sorte ao meu grande amigo e parceiro de mais de uma década que resolveu seguir um caminho diferente do da música.








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