É de conhecimento público minha posição religiosa; sou ateu.
Sim, por mais pavoroso que isso pareça, por mais horripilante que seja pra você a idéia de um sujeito que não acredita num ser superior criador de tudo e de todos com toda a sua magnificência, benevolência, sapiciência entre outros radicais polissilábicos terminados com o mesmo sufixo, eu estou aqui, e não acredito nesse ser e nem por isso sou um monstro maníaco comedor de criancinhas que nas horas de folga ateia fogo em moças virgens e indefesas que estão paradas numa pracinha esperando por seu grande amor. Sim, eu sou ateu e nem por isso sou um ser terrível
Ser ateu não é ser alguém maligno, cruel, devastador, imoral, indecente e sei lá quais outros adjetivos os homines religiosi colocam naqueles que não acreditam no que eles acreditam; ser ateu é simplesmente não acreditar. Não é blasfemar – nem temos contra o que blasfemar já que não temos uma ideologia religiosa à qual devemos algum tipo de respeito. A religiosidade de um ateu é um nihil religiosi; não dá pra definir. O preconceito geralmente vem daí, por não conserguirmos definir o que é ser ateu com alegorias metafóricas que predominam nas explicações religiosas. Não temos histórias, parábolas, passagens, capítulos, versículos que, com suas metáforas, hipérboles, hipérbatos entre outras figuras de linguagem pra explicar o que pensamos ou que sirvam de luz guia para nossas ações. Nós apenas agimos da forma como pensamos ser o certo; tratamos os outros como gostaríamos de ser tratados e falamos aquilo que gostaríamos de ouvir – isso sem precisar de nenhum mandamento ancestral punidor que, se não o seguirmos, seremos mandados para um lugar cheio de mármore derretido e fervente onde ficaremos por toda a eternidade. Aliás, ser ateu é não acreditar sobretudo nisso. Ser ateu além de tudo é não acreditar que a resposta religiosa realmente valha como definitiva; no máximo, a resposta religiosa vale como uma nova pergunta: “Isso realmente é possível?” ou talvez “Devemos abandonar o cientificismo e adotar o fantástico como alternativa real para essas questões?”. Fora desse contexto, a resposta religiosa não é – e nem deve ser – levada ao crivo de uma discussão científica séria. E essa é a discussão que rege o ateísmo. Ser ateu é reconhecer o quão insignificante é a existência humana e, a partir da consciência dessa pequenez, cultivar, criar, cuidar das coisas para que a existência mesma tenha sentido aqui, não num plano astral. É fazer as coisas terem significado, mesmo sem terem sentido mitológico, espiritual ou divino.
Ateísmo não é algo que se escolhe. Não é como um time de futebol que se escolhe e de uma hora pra outra se diz “Ah! Sou ateu!”. É uma sucessão de questionamentos que surgem na infância e depois tomam forma da certeza de uma não existência. É olhar pra fora do mistificismo e enxergar um espaço onde não há espaço para um “design inteligente” ou um “mito da criação”. A fé é criada pela dúvida, a falta de fé pela certeza. É como eu disse, não dá pra explicar a falta de crença.
Muitas vezes somos abordados com a pergunta “então pra onde você acha que nós vamos depois que morremos?”. Eu, pelo menos respondo que não sei. Creio que tudo acaba, mas isso vai de cada um. Já vi ateus responderem algo como “A 4ª dimensão”, a famosa dimensão pra onde vão as energias quando se esgotam. Eu particularmente acredito que tudo acaba no último fechar dos olhos, sem poesia de vida postmortem, ou a beleza da reencarnação; apenas um fim. É aqui que as vezes alguns ateus sentem um nó na garganta.
Saber que não há um lugar sagrado reservado pra cada um de nós após a morte é paralisante, não por sabermos que vamos morrer e tudo vai acabar, mas as vezes por saber que aqueles que amamos simplesmente morrem, que não estão mais lá nos velando e que não há esperança de reencontro. Essa é a segunda pior parte. Não me apavora tanto o fato de saber que meus entes queridos, sejam eles pais, amigos ou irmãos quando forem embora simplesmente deixarão de existir, o que me apavora realmente é saber que não há um ente superior velando por eles em vida. É ruim saber que não há nenhum deus, santo, anjo ou espírito superior velando por eles enquanto estão longe e não podemos ficar ao seu lado pra certificar que estão bem. Isso sim é triste.
Há alguém que há não muito eu tinha certeza de como estava sempre, que sempre me certificava de seu estado; se dormia bem, se comia direito, se voltava bem pra casa, se precisava de algo. Quando algo não estava bem, eu fazia que ficasse bem pra que nada acontecesse de pior. Velava seu sono, seu passo.
Hoje não posso mais ter certeza de como esse alguém está. E machuca não saber se está bem ou se precisa que eu faça algo. Por isso, toda noite, antes de dormir, eu peço não pra que deuses, santos, anjos, espíritos, entidades cuidem de quem eu amo, mas eu peço pra que todos nós ateus estejamos errados e que haja realmente algo pra proteger aqueles que eu não posso estar perto pra proteger. Por isso antes de fechar meus olhos pra dormir eu me concentro e peço pra um possível deus existente em alguma nuvem, monte, nave ou caverna que cuide dela, e não deixe que nada de mal aconteça enquanto estou longe.
Por isso agora eu peço aqui: se há um deus aí, cuidando de nós ou apenas se divertindo às custas de desavisados descrentes e pagãos, que, na minha falta cuide de minha pequena menina, pois sei que se minha falta não é sentida, minha presença é ao menos necessária ao lado dela, e mesmo que eu tenha sido descrente por 23 horas e 55 minutos todos meus dias, ela ainda é jovem o suficiente pra precisar de proteção; então a proteja, não pelas súplicas de um velho blasfemador, mas pela segurança de uma alma ainda não inflamada pelas mesmas irreparáveis chamas que corroeram um dia minha fé.





